Locais para observar aves costeiras no litoral paulista — #1 Praia do Taniguá, Peruíbe

Essa é a primeira postagem de uma série que tem como objetivo apresentar locais no litoral paulista importantes para a conservação de aves costeiras e com potencial para observação de aves. Ao final, as informações produzidas serão organizadas em página única do blog. O primeiro local é um dos ambientes mais importantes da região, a praia do Taniguá (Tanigwá).

Praia do Taniguá e suas aves

A Praia do Taniguá, localizada nos municípios de Itanhaém e Peruíbe (24°16’21.06″S; 46°55’50.59″O), situa-se entre a Terra Indígena Piaçaguera e a Área de Proteção Marinha do Litoral Centro (Setor Carijó), considerada pelo Plano de Manejo da Unidade de Conservação como área prioritária para a proteção de aves migratórias e residentes (Fundação Florestal, 2019). 

É uma das poucas praias não urbanizadas na região, caracterizada pela presença de vegetação nativa de restinga. Possui cinco quilômetros de extensão e é um dos trechos mais importante para trinta-réis, gaivotas e aves limícolas migratórias e residentes no município (e possivelmente um dos mais importantes do litoral paulista), por conservar ainda uma fisionomia de praia em estado selvagem, sendo o último trecho contínuo de floresta costeira no litoral centro. Vários ambientes se sucedem a partir da costa oceânica em direção à Serra do Mar, formando um complexo mosaico de hábitats compostos por praias costeiras, vegetação de praias e dunas, restingas arbustivas e brejos (Bird City, 2026). 

Vista aérea da praia do Taniguá, com a Estação Ecológica da Jureia ao fundo. Marcio Motta, 2021.

A praia insere-se no sistema costeiro associado à planície costeira da Juréia–Itatins, uma das áreas mais preservadas do litoral paulista. Do ponto de vista geomorfológico e morfodinâmico, trata-se de uma praia arenosa oceânica associada a um sistema deposicional costeiro dominado por processos marinhos e fluviais (Bentz, 2004). Do ponto de vista morfodinâmico, as praias do litoral sul paulista — incluindo Taniguá — são predominantemente classificadas como praias dissipativas ou intermediárias com tendência dissipativa (perfil plano, com zona entremarés larga e gradiente suave). Praias com essas características geralmente são ambientes adequados para aves que buscam alimento e descanso, como os trinta-réis, gaivotas, aves limícolas e demais aves costeiras.

Bando heteroespecífico de gaivotões e trinta-réis. Taniguá, 2021. Marcio Motta

Com relação às aves, não existe um hotspot específico para a praia do Taniguá no eBird, mas o local relacionado provavelmente é denominado Praia de Peruíbe, e conta – até março de 2026 – com 186 espécies registradas, 446 listas e 112 observadores (para referência, Peruíbe tem registrado na plataforma 579 espécies e mais de 17.000 listas).

A praia do Taniguá é um local onde é possível observar uma diversidade expressiva de Aves Limícolas (batuíras, maçaricos e afins) e o Projeto Aves Limícolas, coordenado pelos biólogos Karina Ávila e Bruno Lima, tem realizado há anos diversos estudos científicos e atividades de Educação Ambiental sobre o grupo, além de contribuirem com os dados para o projeto de monitoramento participativo dos trinta-réis no litoral paulista, juntamente com Fábio Barata, do Mochileiros Hostel e Observação de Aves, que compartilham registros na região do Guaraú e ilhas próximas de Peruíbe.

Piru-piru, Haematopus palliatus – 26/09/2020 – Peruíbe, SP – iNaturalist.
Maçarico-branco, Calidris alba – 26/09/2020 – Peruíbe, SP – iNaturalist

Trinta-réis e gaivotas na região

Bando heteroespecífico, formado por trinta-réis-real, de-bando e gaivotões – Taniguá, 2021. Marcio Motta.

Assim como o Taniguá é um refúgio para as aves limícolas, a praia também recebe diversas espécies de larídeos, como é possível observar na tabela a seguir. Espécies residentes e migratórias compartilham o espaço como área de descanso, alimentação e exibição de diversos comportamentos de manutenção e reprodutivos. A proximidade como ilhas onde já foram registradas colônias reprodutivas de trinta-réis e a presença de embarcações de pesca podem ser fatores adicionais que contribuem para a presença de grandes bandos heteroespecíficos, formado principalmente por trinta-réis-real (Thalasseus maximus), de-bando (T. acuflavidus) e gaivotões (Larus dominicanus). Importante observar os bandos com atenção, pois entre as dezenas (e por vezes, centenas) de indivíduos é possível registrar espécies menos frequentes, como o trinta-réis-boreal (Sterna hirundo), de-bico-vermelho (S. hirundinacea) coroa-branca (S. trudeaui), outras mais raras ou espécies de gaivotas.

Bando heteroespecífico com três espécies de trinta-réis e gaivotão. Taniguá, 2021. Marcio Motta.

Vale lembrar que três espécies de trinta-réis (real, de-bando e de-bico-vermelho) e o gaivotão se reproduzem no litoral de São Paulo, a maior parte das colônias em regiões insulares. Uma análise das três plataformas de Ciência Cidadã mais usadas pelos observadores de aves na região mostra a presença dos larídeos já observados e registrados (os links de cada espécie levam à observações realizadas no local):

eBird* iNaturalist* Wikiaves
Thalasseus maximusXXX
Thalasseus acuflavidusXXX
Sterna hirundinaceaXXX
Sterna hirundoXXX
Sternula superciliarisXXX
Sterna trudeauiXXX
Sterna paradisaeaXX
Phaetusa simplexX
Anous stolidusXX
Gelochelidon niloticaX
Rynchops nigerXXX
Larus dominicanusXXX
Chroicocephalus cirrocephalusX
Chroicocephalus maculipennisXX
Xema sabiniX
Leucophaeus pipixcanXX
Leucophaeus atricillaX

É importante lembrar que os dados apresentados tanto do iNaturalist quanto Wikiaves são relativos ao município, e não ao local específico. De qualquer forma, são informações que podem ser levadas em consideração no planejamento para visitar o local para observação.

Seguem abaixo alguns registros realizados no Taniguá:

Trinta-réis-real, Thalasseus maximus – Praia do Taniguá, Peruíbe. Foto: Marcio Motta, iNaturalist.
Trinta-réis-de-bando, T. acuflavidus – Praia do Taniguá, Peruíbe. Foto: Marcio Motta, iNaturalist.
Gaivotão, Larus dominicanus – Praia do Taniguá, Peruíbe. Foto: Marcio Motta, iNaturalist.
Gaivota-alegre, Leucophaeus atricilla – Praia do Taniguá, Peruíbe. Foto : Marcio Motta, iNaturalist.

Quando visitar? A resposta depende muito das espécies que o observador pretende registrar. A tabela abaixo apresenta os registros de algumas espécies na região, feitas por usuários do eBird. Gaivotões, trinta-réis-real e de-bando podem ser vistos praticamente o ano todo, mas algumas espécies têm registros esporádicos e/ou eventuais, como acontecem com as demais espécies de gaivotas e trinta-réis. Acesse a tabela na íntegra, aqui.

Impactos e esforços de conservação

Embora localizada dentro de uma Área de Proteção Ambiental Marinha, a praia sofre diversas pressões antrópicas, como a presença de cães, corridas de cavalo, trânsito de veículos automotores e voo de paramotor. Todas essas ações humanas impactam a dinâmica do local e por consequência, a sobrevivência das espécies que dependem da área para desenvolver plenamente seus ciclos biológicos (alimentação, descanso, reprodução, migração, entre outros).

Cão perseguindo um grupo de batuíras-de-bando na praia do Taniguá. Foto: Marcio Motta
Voo de paramotor sobre a faixa de areia da praia do Taniguá, onde as aves comumente estão em busca de alimento ou descanso. Foto: Marcio Motta
Presença de diversos impactos simultâneos na faixa de areia da praia do Taniguá, num final de semana. Foto: Marcio Motta

Diante do exposto, diversas instituições muito atuantes no município vêm há anos estudando, pesquisando, monitorando, orientando e propondo possibilidades de um melhor convívio entre seres humanos e a biota local, destacando aqui o Projeto Aves Limícolas, MoCAN, Instituto Ambiecco, Mochileiros Hostel, Clubes de Observadores de Aves de Peruíbe e Litoral de SP e o Projeto Salva-Mar. Anualmente, o grupo organiza o Festival de Aves Costeiras do Litoral Paulista, que já está em sua 5ª edição e estão engajados em diversas frentes para a proteção efetiva da praia.

Guias e eventos locais

Se é a proposta é contratar um guia local para conhecer o Taniguá, vale a pena entrar em contato com a equipe do Mochileiros Hostel e Observação de Aves. Fábio Barata e Elen possuem grande experiência na região e oferecem diversos roteiros interessantes, além de um espaço muito acolhedor no Guaraú, em Peruíbe. O Instituto Ambiecco realiza, juntamente com o Projeto Aves Limícolas, um curso teórico-prático de Ornitologia que é uma ótima oportunidade para conhecer a avifauna local, além do já citado Festival de Aves.


Por fim, é importante reforçar que a praia do Taniguá ainda é um dos pontos mais interessantes para a observação de aves costeiras, sejam elas residentes ou migratórias, e precisa de toda ajuda possível para que o Poder Público e a Sociedade Civil compreenda o tamanho da sua relevância ambiental para todo o litoral paulista.

O próximo local da série continua em Peruíbe. Aguardem!


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