Entre os anos de 2016 e 2019, o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) registrou mais de 11 mil encalhes de aves marinhas ao longo de aproximadamente 1.000 km de litoral entre Santa Catarina e São Paulo. Essa pesquisa, publicada recentemente na revista PLOS ONE (Rodrigues et al., 2025), representa o primeiro esforço sistemático de análise espacial e temporal de encalhes de aves marinhas nessa região e oferece importantes ideias sobre os fatores que influenciam esses eventos, incluindo condições ambientais, comportamento migratório e sazonalidade.

Contextualização e importância ecológica
Os encalhes de aves marinhas não representam apenas eventos de mortalidade isolados, mas sim indicadores valiosos de processos ecológicos, climáticos e oceanográficos. Esses eventos refletem o estado de saúde das populações de aves, sua interação com atividades humanas (como a pesca e a exploração de petróleo) e, principalmente, os desafios enfrentados durante migrações e períodos reprodutivos.
A análise revelou um claro gradiente de declínio nos encalhes de sul para norte, com maior concentração nas mesorregiões do estado de Santa Catarina. Essa distribuição espacial coincide com a presença de colônias reprodutivas estabelecidas, maior disponibilidade alimentar e maior exposição a variáveis ambientais, como vento e ondas, que facilitam o encalhe dos indivíduos.
Com base nos dados do estudo, as espécies que mais encalharam foram:
| Nome comum | Nome científico | Nº de indivíduos |
| Pardela-sombria | Puffinus puffinus | 3056 |
| Gaivotão | Larus dominicanus | 2862 |
| Atobá-pardo | Sula leucogaster | 2010 |
| Albatroz-de-nariz-amarelo | Thalassarche chlororhynchos | 979 |
| Pardela-preta | Procellaria aequinoctialis | 663 |
Essas espécies representam a maior parte dos registros ao longo do estudo e incluem aves pelágicas, que passam a maior parte do ciclo de vida em águas distantes da região costeira, com encalhes relacionados à reprodução e alimentação costeira, quanto migratórias, cujos encalhes foram associados a eventos climáticos extremos, longas rotas de voo e fatores oceanográficos.
Sobre as espécies residentes e de hábitos costeiros, os registros dos larídeos presentes no estudo são apresentados na tabela a seguir:
| Nome comum | Nome científico | Nº de indivíduos |
| Gaivotão | Larus dominicanus | 2.862 |
| Trinta-réis-de-bico-vermelho | Sterna hirundinacea | 107 |
| Trinta-réis-de-bando | Thalasseus acuflavidus | 88 |
| Trinta-réis-real | Thalasseus maximus | 18 |
O cenário no estado de São Paulo
Embora a costa paulista apresente menor número de encalhes em comparação com o sul, ela ainda desempenha um papel significativo na conservação de aves marinhas. O estudo dividiu o litoral em oito mesorregiões, das quais três correspondem ao estado de São Paulo (sul, central e norte do litoral paulista).
Espécies como Larus dominicanus, Sterna hirundinacea, Thalasseus acuflavidus e Thalasseus maximus foram registradas na região, embora em menor abundância do que em Santa Catarina. A presença dessas espécies no litoral paulista parece estar ligada a comportamentos de alimentação, reprodução e descanso, sobretudo durante a primavera e o verão.
Apesar de os encalhes em São Paulo serem mais esparsos, eles são ecologicamente relevantes. As praias paulistas funcionam como rotas de passagem e áreas de alimentação para diversas espécies, inclusive migratórias. Registros de encalhes em Ubatuba, Ilhabela, Santos e Peruíbe reforçam a importância dessas áreas para o monitoramento e conservação.
Variáveis ambientais e padrões de encalhe
As análises estatísticas demonstraram que variáveis como intensidade do vento, altura das ondas e concentração de clorofila (indicador de produtividade primária) foram positivamente correlacionadas com a abundância, riqueza e diversidade de encalhes. Em contrapartida, a temperatura superficial do mar apresentou correlação negativa em alguns grupos. O tráfego de embarcações e a presença de óleo, embora monitorados, mostraram influência mínima durante o período do estudo, apesar do reconhecido risco ecológico representado por essas atividades.
Implicações para a conservação
A identificação de padrões espaciais e sazonais nos encalhes das aves marinhas fornece subsídios valiosos para estratégias de manejo e conservação. No caso específico das espécies do gênero Thalasseus e Sterna, compreender o impacto das variáveis ambientais em seus ciclos de vida é essencial para promover a proteção de áreas críticas de reprodução, descanso e alimentação. Em um cenário de mudanças climáticas e pressão antrópica crescente sobre os ambientes marinhos, estudos como este reforçam a importância do monitoramento contínuo e da ciência cidadã como ferramentas de apoio à conservação.
Os encalhes de aves marinhas no estado de São Paulo, apesar de numericamente inferiores aos registrados no sul, oferecem dados importantes para o entendimento da ecologia e das ameaças enfrentadas por espécies residentes e migratórias. A continuidade de programas de monitoramento são essenciais para ampliar o conhecimento e fomentar políticas públicas voltadas à conservação da avifauna marinha brasileira.
Referência:
Rodrigues, R.S., Cionek, V.M., Barreto, A.S., Branco, J.O. (2025) Seabird strandings on the Brazilian coast: What influences spatial and temporal patterns? PLoS ONE 20(4): e0317335. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0317335








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