Atualmente, acredita-se que o trinta-réis-do-ártico (Sterna paradisaea) realiza a migração mais longa entre todas as espécies de aves, passando o verão no Ártico e o inverno na Antártida todos os anos, podendo percorrer distâncias superiores a 81 mil quilômetros entre os polos do planeta. Esta impressionante façanha tem sido revelada por tecnologias recentes de rastreamento e estudos genéticos e ecológicos que reforçam a importância global – e também regional – dessa espécie.

Migração Transcontinental: Dois Caminhos, Um Destino
No estudo desenvolvido por Egevang et al. (2010), os pesquisadores rastrearam trinta-réis-do-ártico na Groenlândia e Islândia por meio de geolocalizadores de apenas 1,4 g. Os dados revelaram rotas migratórias distintas no Atlântico Sul: sete aves seguiram pela costa oeste da África, enquanto outras quatro cruzaram o Atlântico para a costa do Brasil, contornando a América do Sul até cerca de 40°S.

A figura acima apresenta as rotas migratórias interpoladas de 11 indivíduos, rastreados com geolocalizadores a partir de colônias reprodutivas na Groenlândia (n = 10) e Islândia (n = 1). As linhas coloridas indicam os deslocamentos sazonais ao longo do ciclo anual da espécie.
As cores no mapa representam diferentes fases do ciclo migratório:
- Verde: migração pós-reprodutiva (outono boreal; agosto a novembro)
- Vermelho: área de invernada (verão austral; dezembro a março)
- Amarelo: migração de retorno à área de reprodução (primavera boreal; abril a maio)
O mapa está dividido em dois painéis (A e B), que demonstram a existência de duas rotas distintas de migração sul no Oceano Atlântico:
- Painel A: sete aves utilizaram uma rota oriental ao longo da costa oeste da África, migrando em direção ao sul até alcançar as águas da Antártida.
- Painel B: quatro aves adotaram uma rota ocidental, descendo pela costa brasileira, revelando o uso dessa região como um importante corredor migratório.
Apesar dessas diferenças iniciais na migração para o sul, todas as aves convergiram para o mesmo destino: o Oceano Antártico, onde passaram o verão austral alimentando-se em zonas altamente produtivas (krill), como o Mar de Weddell. Posteriormente, retornaram ao norte por uma rota mais direta e veloz, completando um ciclo migratório que pode superar 80.000 km por ano.
As linhas tracejadas indicam a posição das aves durante os equinócios, que são períodos críticos para a calibração de dados geográficos em estudos com geolocalizadores, devido à baixa precisão latitudinal nesses momentos.
Este mapa é uma das evidências mais claras da extraordinária plasticidade migratória da Sterna paradisaea, e reforça o papel da costa atlântica da América do Sul, incluindo o Brasil, como parte integrante de uma das maiores migrações animais conhecidas na natureza.
| Segmento da Migração | Distância Percorrida |
| Distância total migratória | 70.900 km (59.500–81.600 km) |
| Distância na migração para o sul | 34.600 km (28.800–38.500 km) |
| Distância por dia (migração sul) | 330 km/dia (280–390 km/dia) |
| Distância na migração para o norte | 25.700 km (21.400–34.900 km) |
| Distância por dia (migração norte) | 520 km/dia (390–670 km/dia) |
| Distância percorrida na área de invernada | 10.900 km (2.700–21.600 km) |
Brasil na Rota: Evidências de Ocorrência e Invernada
A presença da Sterna paradisaea no Brasil, antes considerada excepcional, tem sido cada vez mais documentada. Segundo Dias et al. (2012), há registros confirmados da espécie em 21 localidades brasileiras, incluindo São Paulo:
- Ubatuba (SP) – Observação sem data registrada, sem detalhes adicionais disponíveis. O caso é citado por Willis e Oniki (2003).
- Bertioga (SP) – Um indivíduo foi observado em setembro de 1984 por E.O. Willis, conforme citado em Willis e Oniki (2003). Nenhum outro dado foi fornecido na ocasião.
- Itanhaém / Praia Grande (SP) – Um exemplar foi coletado em agosto de 1954, sendo atualmente catalogado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo sob o número MZUSP 36657. A referência ao registro é feita por Pinto (1964) e confirmada posteriormente por L.F. Silveira (in litt., 2012).
- Cidade de Praia, Peruíbe (SP) – Registro de data incerta, possivelmente associado ao registro de Itanhaém. Não há detalhes adicionais disponíveis, sendo apenas citado por Willis e Oniki (2003).
- Iguape (SP) – Em julho de 1969, um exemplar foi coletado e incorporado à coleção do MZUSP sob o número 70510. O registro é documentado por Willis e Oniki (2003) e também mencionado por L.F. Silveira (in litt., 2012).
- Plataforma continental e talude entre RJ e SP (profundidade de 200–1500 m) – Em maio de 1997, dois indivíduos foram observados a partir de uma embarcação de espinhel de fundo. Embora não tenham sido fotografados, apresentavam bordas primárias translúcidas, uma característica diagnóstica da espécie. O episódio foi relatado por Olmos e Bugoni (2006) e confirmado por F. Olmos (in litt., 2012).
Esses registros demonstram que a costa paulista, incluindo áreas oceânicas profundas, compõe parte da rota migratória austral de Sterna paradisaea, com evidências tanto de passagem quanto de permanência sazonal, especialmente em localidades do litoral sul do estado.
Além disso, foram identificados dez espécimes de museu oriundos de oito localidades distintas, além de observações fotográficas e dados de anilhamento. O litoral do Rio Grande do Sul destaca-se como um local de presença regular durante o inverno austral, sugerindo que essas águas são utilizadas como área de invernada, possivelmente por indivíduos jovens ou não reprodutivos.
Genética e Adaptações ao Voo de Longo Curso
No campo da biologia molecular, Skujina et al. (2019) publicaram o sequenciamento completo do genoma mitocondrial da Sterna paradisaea.
Com 16.708 pares de bases, o mitogenoma revelou padrões típicos de aves, mas trouxe subsídios para investigações sobre adaptações metabólicas únicas dessa espécie. Esses dados podem explicar, em parte, como uma ave de apenas 100g consegue sustentar voos diários superiores a 500 km, suportando condições extremas de temperatura, altitude e baixa disponibilidade energética.
Mudanças Climáticas: Riscos para um Migrante Polar
A resiliência da Sterna paradisaea está sendo testada pelas rápidas alterações climáticas. Em um estudo recente, Khokhlova e Mandryka (2024) avaliaram os efeitos de variáveis meteorológicas, como temperatura e umidade relativa do ar, sobre os ciclos migratórios da espécie.
Os resultados indicam que essas condições ambientais são determinantes no início da migração, no tempo de parada e na escolha de rotas, sugerindo que a Sterna paradisaea atua como bioindicadora de mudanças ambientais em escalas hemisféricas. A intensificação do aquecimento global e a instabilidade climática podem comprometer os padrões migratórios regulares e a disponibilidade de alimento ao longo das rotas.
Uma Espécie-Sentinela dos Oceanos Globais
A Sterna paradisaea é mais do que um ícone da migração — é um elo vivo entre os extremos do planeta. A confirmação de sua presença na costa brasileira e os avanços em genética e ecologia migratória reforçam a urgência de ações coordenadas de monitoramento e conservação.
Referências:
- EGEVANG, C. et al. Tracking of Arctic terns Sterna paradisaea reveals longest animal migration. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 107, n. 5, p. 2078–2081, 2010. DOI: 10.1073/pnas.0909493107
- DIAS, R. et al. New records and a review of the distribution of the Arctic Tern Sterna paradisaea Pontoppidan, 1763 (Aves: Sternidae) in Brazil. Check List, v. 8, n. 3, p. 563–567, 2012. DOI: 10.15560/8.3.563
- SKUJINA, I. et al. The complete mitochondrial genome of record-breaking migrant Arctic tern (Sterna paradisaea). Mitochondrial DNA. Part B, Resources, v. 4, n. 2, p. 2738–2739, 2019. DOI: 10.1080/23802359.2019.1644225
- KHOKHLOVA, L. P.; MANDRYKA, O. N. Study of bird migrations under changing weather conditions to preserve arctic ecosystems. Part 1: Arctic tern (Sterna paradisaea). Arctic and Innovations, 2024. DOI: 10.21443/3034-1434-2024-2-2-82-91
- OLMOS, F.; BUGONI, L. Agregações de aves marinhas associadas à pesca de espinhel-de-fundo na região sudeste-sul do Brasil. In: NEVES, T.; BUGONI, L.; ROSSI-WONGTSCHOWSKI, C. L. D. B. (Org.). Aves oceânicas e suas interações com a pesca na Região Sudeste-Sul do Brasil. São Paulo: Instituto Oceanográfico USP, 2006. p. 69–81. (Série Documentos Revizee: Score Sul).
- WILLIS, E. O.; ONIKI, Y. Aves do Estado de São Paulo. Rio Claro: Editora Divisa, 2003. 398 p.








Deixe um comentário