Se você já passou algum tempo perto do mar, provavelmente já viu trinta-réis — aquelas aves marinhas esguias, de asas pontiagudas, que voam com precisão impressionante sobre as ondas. Entre elas está o trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea), espécie que se reproduz ao longo da costa da Argentina e Brasil, com registros de reprodução na costa paulista. Historicamente, essas aves preferem áreas insulares para nidificar, mas o que acontece quando elas escolhem locais construídos pelos seres humanos?

Um estudo recente publicado na revista Ocean and Coastal Research, conduzido pelos pesquisadores Leo Cordeiro M. Fonseca, Msc. e Dr. Edison Barbieri, investigou exatamente isso, analisando os hábitos reprodutivos de Sterna hirundinacea em um local inusitado: o terminal petrolífero da Petrobras (TEBAR), na costa norte paulista, em São Sebastião. Com plataformas de concreto, dutos industriais e tráfego de veículos, o TEBAR pode parecer um lugar estranho para criar filhotes. Ainda assim, em 2021, os pesquisadores registraram 159 ninhos no local — um sinal claro de que a natureza está tentando se adaptar às estruturas humanas.

Mas adaptar-se não é tarefa fácil.
Uma temporada reprodutiva difícil
Os pesquisadores monitoraram de perto 57 ninhos. Os resultados foram preocupantes. De 78 ovos, apenas 15 eclodiram, e somente 4 filhotes sobreviveram até conseguir voar. Isso representa uma taxa de sucesso reprodutivo de apenas 5,1%, bem abaixo da média registrada em habitats naturais.
E por que tantos fracassos? As causas variaram entre predação por gaivotas, inviabilidade dos ovos e mortalidade dos filhotes. Mas um fator surpreendente chamou a atenção: atropelamentos por veículos. Alguns filhotes, assustados com a movimentação humana, caíam das plataformas elevadas ou eram atropelados. Essa ameaça simplesmente não existe em ilhas naturais.
O que isso nos mostra?
Essa pesquisa revela o impacto oculto da expansão urbana e industrial sobre a vida selvagem costeira. Enquanto aves como as gaivotas se adaptam facilmente a ambientes urbanos, os trinta-réis são muito mais sensíveis. Sua estratégia reprodutiva — poucos ovos, incubação longa e filhotes dependentes — não combina com paisagens caóticas e artificiais.
Mesmo assim, o número elevado de ninhos no TEBAR pode indicar que essas aves estão tentando se adaptar à interferência antrópica, mas também um alerta para nós.
O que pode ser feito?
Os autores do estudo destacam a importância de monitorar ambientes artificiais de nidificação e desenvolver estratégias de mitigação. Algumas medidas sugeridas incluem:
• Instalar barreiras ou abrigos para evitar quedas dos filhotes;
• Restringir o tráfego de veículos durante a época de reprodução;
• Criar zonas de conservação dentro de áreas industriais.
Estudos de longo prazo no local podem auxiliar na adoção de medidas que promovam mais proteção durante a temporada reprodutiva e contribuir assim para um maior sucesso na taxa de sobrevivência dos filhotes. Importante ressaltar que a espécie está incluída na lista de animais ameaçados de extinção no Estado de São Paulo, categoria Vulnerável (São Paulo, 2018) e esforços conjuntos entre o Poder Público, Universidades e Sociedade Civil Organizada possam validar e atualizar o status de conservação da espécie, bem como potencializar as ações conservacionistas para esta e as demais espécies de trinta-réis que habitam a região norte da costa paulista.
…
Se interessou em saber mais? Conheça esta e outras espécies de trinta-réis aqui.
Referências:
FONSECA, Léo C. M.; BARBIERI, Edison. Reproductive success of the South American Tern, Sterna hirundinacea Lesson, 1831 (Aves: Laridae), at an artificial site in the coast of São Paulo state, Brazil. Ocean and Coastal Research, v. 72, e24052, 2024. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/385491140_Reproductive_success_of_the_South_American_Tern_Sterna_hirundinacea_Lesson_1831_Aves_Laridae_at_an_artificial_site_in_the_coast_of_Sao_Paulo_state_Brazil. Acesso em: 5 abr. 2025.
SÃO PAULO (Estado). Decreto nº 63.853, de 27 de novembro de 2018. Regulamenta a Lei nº 14.653, de 22 de dezembro de 2011, que dispõe sobre a Política Estadual de Mudanças Climáticas – PEMC. Diário Oficial do Estado de São Paulo, Poder Executivo, São Paulo, 28 nov. 2018. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/2018/decreto-63853-27.11.2018.html. Acesso em: 5 abr. 2025.








Deixe um comentário