Em 2019, um estudo marcante publicado na revista Science chocou o mundo ao revelar que a América do Norte havia perdido quase 3 bilhões de aves desde 1970. Agora, o Relatório do Estado das Aves de 2025 confirma que a crise continua — com fortes quedas populacionais em diversos grupos de aves e regiões. Apesar de alguns sucessos pontuais de conservação, os dados deixam uma mensagem clara: a América continua perdendo suas aves.

O panorama geral: declínios em diversos grupos de aves
As tendências de longo prazo mostram quedas contínuas e acentuadas em muitos grupos de aves. As aves dos campos abertos caíram 43%, as aves das regiões áridas, 41%, e as aves costeiras migratórias, 33%. Mesmo as aves das florestas do leste dos EUA registraram uma queda de 27%. Grupos que antes eram considerados histórias de sucesso, como os patos de superfície e de mergulho, estão começando a apresentar sinais preocupantes de declínio nos últimos anos.
Por outro lado, as aves aquáticas aumentaram em 16%, mostrando que esforços de conservação direcionados podem dar resultado. Ainda assim, a tendência geral segue alarmante, com perda de habitat, impactos climáticos e atividades humanas afetando fortemente as populações de aves.
Aves marinhas: um declínio rápido e alarmante
Entre os dados mais preocupantes do relatório de 2025 estão os declínios em cascata das populações de aves marinhas, especialmente no Havaí e no Alasca. Estudos apontam quedas entre 55% e 95% nas últimas décadas. Entre 2012 e 2022, quase todas as espécies de aves marinhas da América do Norte apresentaram declínio.
Essas perdas são causadas por diversos fatores:
- Perturbações no habitat marinho, como a elevação do nível do mar e ondas de calor oceânicas, que destroem colônias reprodutivas e fontes de alimento.
- Uma onda de calor marinha no Alasca, entre 2014 e 2016, levou à morte por inanição de mais de 4 milhões de murres-comuns (Uria aalge) — o maior evento de mortalidade da vida silvestre registrado na era moderna.
- Predação, captura acidental em pescarias, poluição por plásticos, perda de habitat e doenças estão agravando a situação.
Gaivotas e trinta-réis também em risco
O relatório destaca que várias espécies de gaivotas e trinta-réis estão entre as mais ameaçadas:
- Gaivota-do-oeste (Larus occidentalis)
- Gaivota-de-bico-curto (Larus brachyrhynchus)
- Gaivota-glaucus (Larus hyperboreus)
- Gaivota-de-dorso-preto-grande (Larus marinus)
- Trinta-réis-miúdo (Sternula antillarum)

Essas espécies foram classificadas como espécies em ponto crítico – Alerta Laranja, indicando perdas populacionais aceleradas nas últimas décadas. Elas enfrentam pressões como predadores invasores, perturbação humana em áreas de reprodução e a destruição de habitats costeiros, além das já citadas mudanças climáticas.
As colônias de aves marinhas estão colapsando especialmente ao longo da costa oeste dos EUA, como mostram os dados do eBird. A urgência de um monitoramento contínuo e ações restaurativas é evidente.
A conservação oferece esperança — inclusive para aves marinhas
Apesar das perdas acentuadas, há sinais promissores de que a conservação funciona. Uma estratégia de sucesso tem sido a translocação — ou seja, a movimentação de colônias reprodutivas para terrenos mais altos, longe da elevação do nível do mar.
No Havaí, uma parceria entre a organização Pacific Rim Conservation, a Marinha dos EUA e o U.S. Fish and Wildlife Service criou áreas protegidas com cercas contra predadores para espécies como:
- Albatroz-de-pés-pretos (Phoebastria nigripes)
- Albatroz-de-Laysan (Phoebastria immutabilis)
- Petrel Bonin (Pterodroma hypoleuca)
- Petrel-de-Tristram (Hydrobates tristrami)
Essas aves estão retornando para se reproduzir em áreas seguras, provando que ações científicas e coordenadas podem reverter o declínio.
Políticas que favorecem as aves também beneficiam as pessoas
Políticas que favorecem a recuperação das aves costumam trazer benefícios amplos para a sociedade. Habitats saudáveis significam água mais limpa, solos mais férteis e maior resiliência a desastres naturais, como enchentes e incêndios florestais. Além disso, os mais de 100 milhões de observadores de aves nos EUA impulsionam uma economia de natureza viva que movimenta US$ 279 bilhões em atividades relacionadas.
Um caminho possível
O Relatório do Estado das Aves de 2025 deixa uma mensagem clara: nós sabemos como trazer as aves de volta. A ciência é sólida, o público está engajado, e os benefícios vão muito além da conservação. O que precisamos agora é de ação ousada, investimento contínuo e vontade coletiva — antes que mais espécies desapareçam.
Referências:
ROSENBERG, Kenneth V. et al. Decline of the North American avifauna. Science, Washington, DC, v. 366, n. 6461, p. 120–124, 2019. DOI: 10.1126/science.aaw1313.
NORTH AMERICAN BIRD CONSERVATION INITIATIVE. The State of the Birds, United States of America, 2025.Washington, D.C.: NABCI, 2025. Disponível em: https://www.stateofthebirds.org. Acesso em: 23 mar. 2025.









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