Voo em risco: trinta-réis e a questão do bycatch em aves costeiras e marinhas

Além de contribuir com os registros de aves costeiras paulistas no eBird e iNaturalist, iniciei recentemente a auxiliar nas identificações dos registros de trinta-réis-reais (Thalasseus maximus) e trinta-réis-de-bando (T. sandvicensis eurygnathus, que no Brasil é conhecido como T. acuflavidus, conforme a última lista do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos – Pacheco et al., 2021) no iNaturalist. Para quem não conhece ou utiliza a plataforma, é uma forma de ajudar a elevar os registros dessas espécies à categoria “Nível de Pesquisa”. Segundo informações da própria plataforma, o Grau de Qualidade resume a exatidão, precisão, completude, relevância e pertinencia de uma observação iNaturalist como dado de biodiversidade. Dados classificados dessa forma podem ser compartilhados com uma série de parceiros de dados para uso em ciência e conservação.

Hoje me deparei com um registro impactante, feito pelo usuário “docprt“: um trinta-réis-real com linha de pesca ao redor principalmente do bico e parte da cabeça. O animal foi observado na região de Egger Highlands, San Diego, Califórnia, EUA. Vale lembrar que essa espécie também ocorre no Brasil, e consta na Lista de Animais Ameaçados de Extinção do ICMBio (2018) e da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo (2018).

(C) docprt: Alguns direitos reservados. http://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/

O emalhamento de aves marinhas e costeiras não é assunto novo. Em 2020, recebi um registro feito na cidade de Peruíbe, litoral paulista, de um trinta-réis-de-bando emalhado e que foi resgatado por munícipe, que conseguiu retirar o petrecho e liberar o animal.

Fonte: Instagram do Projeto Trinta-réis (2020).

Mas nem todos têm essa sorte. O Relatório de 2014 da NOAA sobre Detritos Marinhos sintetiza as descobertas de pesquisas sobre emaranhamentos em diferentes grupos taxonômicos, com ênfase em espécies como pinípedes, cetáceos, aves marinhas e tartarugas marinhas. No caso das aves marinhas, o emaranhamento ocorre com frequência em detritos flutuantes, como linhas de pesca e materiais plásticos, especialmente afetando espécies que se alimentam na superfície, como é o caso dos trinta-réis, gaivotas e fragatas. O risco de emaranhamento é exacerbado em áreas com altas concentrações de detritos, como zonas de convergência oceânica.

Um estudo publicado em 2018 – Impactos da Poluição por Plásticos Marinhos Desde as Costas Continentais Até os Giros Subtropicais—Peixes, Aves Marinhas e Outros Vertebrados no Pacífico Sudeste – mostrou que um total de 97 espécies no Pacífico Sudeste foram documentadas interagindo com resíduos marinhos, incluindo 20 espécies de peixes, 5 de tartarugas marinhas, 53 de aves marinhas e 19 de mamíferos marinhos. Peixes e aves marinhas em águas oceânicas têm maior probabilidade de ingerir microplásticos, enquanto as espécies costeiras enfrentam maiores riscos de emaranhamento. Os emaranhamentos podem levar a ferimentos graves ou morte, sendo os juvenis particularmente vulneráveis.  O documento reafirma que aves marinhas que se alimentam na superfície são mais suscetíveis à ingestão de plástico, enquanto aquelas que mergulham para se alimentar – como os atobás – são mais propensas ao emaranhamento. O uso de materiais plásticos na construção de ninhos apresenta riscos adicionais, potencialmente levando ao emaranhamento dos filhotes. O estudo destaca a necessidade urgente de medidas para reduzir a poluição plástica, incluindo melhores práticas de gestão de resíduos e regulamentações mais rigorosas sobre o uso de plásticos.

Mais recentemente, um estudo publicado em 2023 (Votier et al., 2023) destaca que as pescarias continuam a impactar as populações de aves marinhas, como por exemplo os albatrozes, por meio da captura acidental (bycatch), competição por presas e provisão de descartes. Os principais resultados incluem:

1. Captura acidental (bycatch): Centenas de milhares de aves marinhas são mortas anualmente, levando ao declínio de certas populações.

2. Competição por presas: Pescarias que visam peixes forrageiros, como anchovas e krill, reduzem o alimento disponível para as aves marinhas, afetando negativamente seu sucesso reprodutivo.

3. Provisão de descartes: Embora os descartes historicamente tenham fornecido uma fonte adicional de alimento, a recente redução dos descartes forçou as aves marinhas a mudarem sua dieta, o que pode levar a consequências ecológicas negativas.

Assim, esforços de mitigação podem incluir projetos de remoção de detritos marinhos, melhoria na gestão de resíduos e regulamentações mais rigorosas sobre o descarte de equipamentos de pesca. No entanto, permanecem desafios devido a inconsistências na distinção entre equipamentos de pesca ativos e detritos marinhos nos dados sobre emaranhamentos. Mais pesquisas são essenciais para entender como os eventos de emalhe impactam as populações de aves costeiras como os trinta-réis, os padrões espaciais e temporais do emaranhamento e para desenvolver estratégias eficazes para reduzir seu impacto nos ecossistemas marinhos, além de uma melhor coleta de dados sobre as interações entre aves marinhas e a pesca, abordando os vieses geográficos nos estudos atuais e explorando os impactos combinados da pesca e de outras ameaças, como as mudanças climáticas. Discutir esses desafios é crucial para a conservação de espécies vulneráveis e para a saúde dos habitats marinhos.


Referências

José Fernando Pacheco, Luís Fábio Silveira, Alexandre Aleixo, Carlos Eduardo Agne, Glayson A. Bencke, Gustavo A. Bravo, Guilherme R. R. Brito, Mario Cohn-Haft, Giovanni Nachtigall Maurício, Luciano N. Naka, Fabio Olmos, Sérgio R. Posso, Alexander C. Lees, Luiz Fernando A. Figueiredo, Eduardo Carrano, Reinaldo C. Guedes, Evaldo Cesari, Ismael Franz, Fabio Schunck, & Vitor de Q. Piacentini. (2021). Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos – segunda edição. Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.5138368

Votier, S.C.; Sherley, R. B.; Scales, K. L.; Camphuysen, K.; Phillips, R.A. (2023). An overview of the impacts of fishing on seabirds, including identifying future research directions, ICES Journal of Marine Science, Volume 80, Issue 9, November, Pages 2380–2392, https://doi.org/10.1093/icesjms/fsad173

Thiel, M.; Luna-Jorquera, G.; Álvarez-Varas, R.; Gallardo, C.;, Hinojosa, I.A.; Luna, N., Miranda-Urbina, D.; Morales, N.; Ory, N.; Pacheco, A.S.; Portflitt-Toro, M.; Zavalaga, C. (2018). Impacts of Marine Plastic Pollution From Continental Coasts to Subtropical Gyres—Fish, Seabirds, and Other Vertebrates in the SE Pacific. Front. Mar. Sci. 5:238. doi: 10.3389/fmars.2018.00238

NOOA, National Oceanic and Atmospheric Administration Marine Debris Program. 2014 Report on the Entanglement of Marine Species in Marine Debris with an Emphasis
on Species in the United States
. Silver Spring, MD. 28 pp


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